Luciano Vidigal é ator do Grupo Nós do Morro há 15 anos, tendo participado de várias peças e filmes. Atualmente, dá aulas de teatro e cinema e está dirigindo novos curtas. É um dos diretores do projeto em longa-metragem Cinco Vezes Favela - Agora Por Eles Mesmos, idealizado por Cacá Diegues (Deus É Brasileiro, Xica da Silva, Bye Bye Brasil), um dos diretores do projeto original Cinco Vezes Favela, rodado em 1962 e um dos marcos do Cinema Novo brasileiro.
1. Qual a idéia por trás do Neguinho & Kika?
O filme se baseia numa história pessoal e mostra como o tráfico de drogas é extremamente atrativo e forte nas favelas cariocas e acaba sendo uma opção para jovens sem oportunidade e auto-estima baixa. O Neguinho do filme é meu irmão mais novo e eu sou o padrinho que aparece no filme. Tinha esse roteiro escrito há muito tempo e o Cavi [Borges, diretor de Pretinho Babylon] ajudou a botar o projeto pra frente.

2. O filme foi rodado dentro do projeto Nós do Cinema. Explique para nós o que é o projeto:
Na verdade não é Nós do Cinema é Nós do Morro. As pessoas sempre confundem. O Nós do Morro já existe há 20 anos como grupo teatral e há 10 como núcleo de cinema. Seus integrantes são moradores do Morro do Vidigal [na zona sul do Rio de Janeiro]. O Nós do Cinema passou a existir depois do filme Cidade de Deus e abrange pessoas de várias comunidades. O projeto Nós do Morro foi criado há vinte anos como uma escola de teatro. Só depois de 10 anos foi que a Rosane Svartman [diretora do filme Como Ser Solteiro, dentre outros] e o Vinícius Reis criaram um núcleo de cinema lá. O núcleo funciona como uma espécie de escola de audiovisual, onde aprendemos teorias e práticas cinematográficas. Comecei como aluno e hoje sou professor de lá. Sou um multiplicador. As aulas são gratuitas e os alunos são os moradores da comunidade.
3. Como foi feita a seleção dos atores? Eles são moradores do Vidigal, certo? Como o filme afetou a vida deles?
Todos os atores são do grupo Nós do Morro. Lá tem cerca de 500 alunos de teatro, por isso ator bom é o que não falta. O personagem principal é [feito pelo] meu outro irmão. Quando fazemos nossos filmes, todos querem participar de alguma forma. Mesmo que seja varrendo o set. Sabemos que, depois, esses filmes vão rodar o mundo e ficamos muitos orgulhosos de ver nossa comunidade mostrando a cara. Em relação a mudar alguma coisa depois do filme, sempre muda mas, atualmente, a galera já está se acustumando com essa profissão e não fica mais deslumbrada, não. Para nós tambem é um trabalho e encaramos como tal.

4. A idéia que as pessoas no Japão tem da vida na favela é associada com violência. Como foi filmar dentro dessas condições?
Na favela não é só violência, não. No Vidigal devem ter no máximo 30 bandidos e cerca de 100.000 moradores. Lá tem trabalhador, artistas, pessoas comuns, como em qualquer lugar. Acho até bem tranquilo morar lá. Lógico que esse submundo é muito louco e acaba marcando nossas vidas. Não quero com esse filme contribuir com essa imagem que nas favelas só tem violência. Mas precisava contar essa história. Ele marcou a minha vida e da minha família. Na verdade, encaro o filme como uma história de amor. Em relação às filmagens, elas foram bem tranquilas e não tivemos problema com os traficantes. Mas. é lógico que eles sabiam o que estava ocorrendo.
5. O que você sugere que o público japonês preste atenção em Neguinho & Kika?
Como o Brasil é diferente da realidade deles e como aqui existe esse disparato social, onde os ricos são muito ricos e os pobres muito pobres. E apesar disso tudo, vivemos lado-a-lado no dia-a-dia. É a famosa cidade partida. Talvez, essa situação dos traficantes devem ser semelhantes à yakuza japonesa, onde o dinheiro fala mais alto e tem suas proprias leis e regras.
Neguinho & Kika será exibido no próximo The Rabadas Cinema Clube. Saiba mais sobre o evento aqui.





