Archive for Julho 25th, 2008

Entrevista com o diretor Chico Serra, de “Operação Morengueira”

Chico Serra mostra nesta edição do The Rabadas Cinema Clube a película Operação Morengueira. Rodado em meio ao carnaval de rua do Rio de Janeiro, o filme traz como personagem-título o sambista Moreira da Silva, também conhecido como Kid Morengueira. Moreira, falecido em 2000, é considerado uma das encarnações da malandragem carioca. No filme, ele tem uma aparição surpreendente e salva a zona boêmia da Lapa de malfeitores. A película é mergulhada na estética do Cinema Marginal, um movimento que mexeu com as estruturas do cinema brasileiro nas décadas de 60 e 70. Como um bom representante do estilo, o filme mostra o submundo e tem como “narrador” um programa de rádio, homenagem explícita ao clássico O Bandido da Luz Vermelha, de 1968.

Qual a idéia que levou você a fazer Operação Morengueira?
Desde a primeira vez que eu vi e ouvi Moreira da Silva (1902-2000), num filme do Ivan Cardoso, fiquei impressionado com seus sambas cinematográficos. Moreira cantou sambas inspirados em filmes de bang-bang, de espionagem, de cangaceiro (gênero muito popular no cinema brasileiro nas décadas de 50 a 70). Tem até um samba onde ele “atua” ao lado de James Bond e Claudia Cardinale (“Moreira da Silva Contra 007″). Então, o meu amigo e parceiro de tantos filmes, o Victor — ou Godô Quincas, como é conhecido no Rio — escreveu o argumento de Operação Morengueira, inspirado nos sambas do Kid Morengueira. Ele me contou esta estória e eu falei na hora: vamos filmar isso!!!

Queria que você falasse um pouco da figura do Kid Morengueira e o que ele representa na cultura popular carioca.
Moreira da Silva, o popular Kid Morengueira, viveu e cantou durante seus 98 anos. Representou, antropologicamente, a malandragem dos bairros boêmios do Rio, em sambas antológicos. Moreira pesquisava e reinventava, brechtianamente, a malandragem em seus sambas. Em uma entrevista ao radialista Hilton Abi Rihan, perguntado se sua malandragem vinha desde “rapazinho”, ele responde: “não, foi o meio ambiente, andando no meio ambiente, observando, pesquisando…”. Morengueira inventou o samba de breque, o samba-teatro, o samba cinematográfico, nas parcerias com Miguel Gustavo, onde interpretava personagens de um cinema musical, uma radionovela, ou um samba cinematográfico.

Como e quando foram realizadas as filmagens e como a equipe trabalhou?
Para mim, a produção deste filme é um milagre que não sei bem explicar. Quem conseguiu negativos de graça foi a Kodak e o Léo Duarte, da Plus Ultra. Nós não tivemos nenhum apoio de lei de incentivo nem nada. Só depois conseguimos apoio para finalização, com o Guilherme Whitaker . Toda a equipe técnica e o elenco trabalhou de graça, até o Jards Macalé, que no filme interpreta ele mesmo e o Kid Morengueira. Macalé recebeu o chapéu de palha de Moreira da Silva, num de seus últimos shows, herdando simbolicamente a malandragem musical de Moreira. E apesar de toda a precariedade que o filme tinha, todo dia de filmagem parecia que a gente estava numa festa.

O filme tem um quê de experimentalismo, bebe na fonte do cinema marginal e da Boca do Lixo. Como é fazer esse tipo de cinema no Brasil hoje? Há espaço para esse tipo de obras?
O filme é inspirado na obra musical de Moreira da Silva, mas também no cinema marginal ou cinema de invenção feito no Brasil entre os anos 60 e 70. A crítica Ivana Bentes disse que o filme é inspirado especialmente em O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla, mas só descobrimos isso depois de filmar. Tem muita influência da chanchada e do western italiano. No Brasil, o cinema experimental existe e tem novos autores se arriscando em 16mm e no cinema digital como Ivo Lopes Araújo, Nilson Primitivo, Cris Miranda, Godô Quincas, a produtora Teia de Minas Gerais, e a Plus Ultra do Rio. Tem muita coisa, não dá para citar todo mundo. Há um relativo espaço em algumas mostras e festivais, mas é um caminho bastante arriscado profissionalmente falando. Daí muitos destes autores migram para o documentário ou tentam trabalhar com filmes de encomenda para sobreviver.

E a Lapa? Qual a tua relação com esse espaço tão especial do Rio de Janeiro?
Fizemos, eu e Godô, uma intensa pesquisa antropológica na Lapa, de 2002 a 2005. Conhecemos alguns antigos moradores e eles até estão homenageados no filme: Valdemar Madrugada e Bob Estrela. A Lapa, na década de 30, foi a fonte de Kid Morengueira e de tantos outros sambistas. Hoje a malandragem é outra e o samba é quase institucionalizado, salvo poucas exceções. O filme é um pouco sobre isso também: a transformação da cultura em mercadoria. A invasão da Lapa por um bandoleiro que distribui dólares e balas é uma metáfora.

O que você sugere que o público japonês preste atenção em Operação Morengueira?
A música de Moreira da Silva, o último dos malandros, o rei do gatilho, o inventor do samba de breque. Sua trajetória musical, das marchas carnavalescas 30 até as crônicas da malandragem, sambas religiosos e sambas inspirados no cinema.

Mais informações sobre a próxima edição do The Rabadas Cinema Clube, clique aqui.

Add comment Julho 25, 2008


japan.jpg

Páginas

Pátria Amada, Brasil


um filme de
Roberto Maxwell e Sabrina Hellmeister

produção:
The Rabadas Cultura Clube
:::saiba mais:::

Agenda

The Rabadas Cinema Clube Vol.6
local: Que Bom
data: 14 de junho
info



Nossas Comunidades

Join!







Rabadas Zine

Tópicos recentes

Cliques

Blogroll

Arquivos

Blog Stats

 

Julho 2008
S T Q Q S S D
« Jun   Ago »
 123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
28293031